Os 8 km que travavam Jaguariaíva: acordo histórico libera trecho ferroviário desativado para a cidade

Após mais de dez meses de articulação junto ao Ministério dos Transportes, prefeitura poderá planejar nova avenida, área habitacional e espaços de lazer no leito da ferrovia que corta o município

Por décadas, uma faixa de oito quilômetros de trilhos desativados cortou Jaguariaíva ao meio, sem que a cidade pudesse fazer nada além de conviver com o espaço ocioso, subutilizado e fora do alcance do planejamento urbano. A área era patrimônio da União, operada pela concessionária Rumo, e qualquer intervenção dependia de uma autorização que nunca chegava. Isso mudou na terça-feira (30), com a assinatura de um Acordo de Cooperação Técnica entre o Ministério dos Transportes e os sete municípios dos Campos Gerais contemplados, incluindo Jaguariaíva.

O acordo foi celebrado em Brasília pelo ministro dos Transportes, George Santoro, ao lado do deputado federal Aliel Machado (PV-PR) e dos prefeitos de Ponta Grossa, Arapoti, Ventania, Piraí do Sul, Castro e Carambeí. Para Jaguariaíva, o documento representa o início formal do processo que pode transformar aquela faixa de terra parada em avenida, habitação e espaço de lazer para a população.

Imagem: Google Maps

Uma demanda que se arrastava há décadas

A primeira reunião formal do prefeito Juca Sloboda com o deputado Aliel sobre o assunto aconteceu em agosto de 2025, quando os dois estiveram no Ministério dos Transportes para apresentar a demanda ao secretário nacional do Transporte Ferroviário, Leonardo César Ribeiro, e ao diretor de Outorgas Ferroviárias, Hélio Roberto. Na ocasião, o prefeito já havia mapeado o problema com precisão.

“Procurei o deputado Aliel para nos ajudar a solucionar essa questão que é tão importante para Jaguariaíva. É um trecho de 8 km dentro da cidade, que hoje não podemos utilizar por ser um patrimônio da União. Precisamos resolver isso para poder fazer uma nova avenida com pista de caminhada e tantos outros projetos que vão favorecer a mobilidade urbana. A partir disso, também poderemos assentar os moradores que estão na Vila Edith, em cima desse trecho”, disse Juca Sloboda naquele momento.

Dez meses depois, o acordo saiu do papel. O peso da conquista para o município foi resumido pelo próprio deputado Aliel ao reproduzir, em entrevista à aRede, uma fala que ouviu do prefeito durante as tratativas: “O prefeito de Jaguariaíva, Juca Sloboda, me disse: ‘Essa é a maior conquista das últimas décadas para o município’.”

O que o acordo significa na prática

A assinatura do Acordo de Cooperação Técnica não entrega o terreno de imediato. Ela marca o início dos atos preparatórios: a partir de agora, serão contratados estudos técnicos para definir as diretrizes do repasse dos trechos ferroviários aos municípios. Só após essa etapa é que o processo de cessão formal poderá avançar.

No total, os trechos que passarão pelo processo de destinação nos sete municípios dos Campos Gerais somam entre 50 e 80 quilômetros de extensão — todos atualmente sob concessão da Rumo, que opera a chamada Malha Sul. O contrato de concessão dessa malha se encerra em fevereiro de 2027, e o Ministério dos Transportes prevê realizar os leilões dos novos corredores ferroviários ainda em 2026. O Corredor Mercosul, que passa pelos Campos Gerais ligando São Paulo ao Sul do país, é justamente o trecho de menor retorno econômico para o setor privado — o que, ironicamente, facilita a destinação das áreas inativas aos municípios.

O ministro George Santoro explicou a lógica da iniciativa: “É muito importante para o Governo do Brasil reaproveitar os ativos hoje ociosos. Quando não há viabilidade para a operação ferroviária de cargas, faz mais sentido permitir que estados e municípios desenvolvam projetos que atendam às necessidades das pessoas.”

O que Jaguariaíva pretende fazer com o espaço

Com o acordo assinado, a prefeitura poderá agora avançar no planejamento das intervenções. Os projetos mencionados pelo prefeito Juca Sloboda ao longo das tratativas incluem a abertura de uma nova avenida com pista de caminhada, melhorias de mobilidade urbana, regularização da Vila Edith — comunidade que hoje ocupa parte do trecho ferroviário sem condições legais de propriedade — além de espaços de lazer e infraestrutura de interesse coletivo.

“A ferrovia trouxe muito progresso para Jaguariaíva, mas hoje esses espaços se transformaram em um problema urbano. Com esse acordo, vamos começar a planejar o futuro dessas áreas e transformá-las em benefícios para a população”, disse o prefeito durante a cerimônia em Brasília.

Um modelo que já funcionou em outros lugares

O acordo dos Campos Gerais não é um experimento. O Ministério dos Transportes já testou o modelo com sucesso em Araraquara (SP), onde um trecho ferroviário inativo foi transformado em área urbana de uso público. A iniciativa agora se expande para outras regiões, com projetos em estudo também para Aracaju (SE) e Campina Grande (PB).

Nos Campos Gerais, o impacto pode ser ainda mais amplo, dado o número de municípios envolvidos e a extensão total dos trechos. Em Piraí do Sul, o prefeito Henrique Carneiro já adiantou que pretende destinar a área para uma galeria de cultura e arte integrada a um parque urbano. Em Arapoti, o prefeito Irani Barros destacou que a ferrovia divide o município ao meio e ainda afeta o distrito de Calógeras. Cada cidade terá agora autonomia para planejar o uso mais adequado do seu trecho, dentro dos estudos que serão conduzidos pelo Ministério.

O próximo passo

A etapa que vem agora é técnica e administrativa, mas determinante. Os estudos contratados pelo Ministério dos Transportes vão definir as diretrizes do repasse, e cada prefeitura precisará apresentar projetos para as áreas que pretende receber. Jaguariaíva já tem, na prática, um esboço desses projetos — construídos ao longo dos meses de articulação que antecederam a assinatura.

Oito quilômetros de trilhos que por décadas representaram um obstáculo urbano podem se tornar, em breve, o maior corredor de transformação que Jaguariaíva já viu. O cronograma depende agora da agilidade técnica — e da vontade política de manter o ritmo que chegou até aqui.

Com informações da aRede, do Ministério dos Transportes e do D’Ponta News.