Jaguariaíva aprovou, no fim de 2025, o novo Plano Municipal de Saúde (PMS) para o período 2026-2029 — o documento que vai orientar as políticas de saúde da cidade pelos próximos quatro anos. Aprovado pela Lei Municipal nº 3066/2025 e validado pelo Conselho Municipal de Saúde (COMSAÚDE) por meio da Resolução nº 09/2025, o plano reúne mais de 180 páginas de dados sobre a estrutura, o financiamento e o perfil epidemiológico do município.
O JaOL analisou o documento na íntegra. Os números mostram uma rede que cresceu nos últimos anos, mas que também enfrenta desafios concretos — do envelhecimento da população ao fato de que uma parcela expressiva das gestantes ainda precisa buscar outras cidades para dar à luz.
Quem paga a conta
O dado mais direto ao bolso do contribuinte: em média, 73,44% de tudo o que Jaguariaíva gasta em saúde sai do próprio caixa municipal, e não de repasses estaduais ou federais. Entre 2021 e 2024, o total de recursos aplicados em saúde no município saltou de R$ 28,8 milhões para R$ 47,9 milhões — um crescimento de mais de 55% nos recursos próprios.
Enquanto isso, o Estado do Paraná repassou R$ 4 milhões em 2024, valor que vem crescendo ano a ano, mas que ainda representa uma fatia pequena perto do que a Prefeitura banca sozinha. A maior parte do dinheiro (76,65% dos repasses tripartites) vai para a Atenção Básica — ou seja, para UBS e equipes de saúde da família —, seguida por média e alta complexidade.
A rede: quem atende cada bairro
A Secretaria Municipal de Saúde (SEMUS), comandada por Marlus Barbosa Pereira, conta com 418 servidores, entre eles 94 técnicos de enfermagem, 32 enfermeiros, 21 agentes de saúde, 18 agentes comunitários de saúde e um corpo médico formado por clínicos gerais, dois ginecologistas/obstetras, um pediatra e seis médicos vinculados ao Programa Federal Mais Médicos.
A cidade tem quatro UBS urbanas, cada uma responsável por uma área específica:
- UBS Dr. Américo Faustino de Carvalho (Remonta) — a de maior abrangência, atende Jardim Ipê, Cidade Alta, Jardim São Roque, Vila Nova, Remonta e outros bairros;
- UBS Adélia Kojo Baldin (Lagoão) — Jardim Edith, Belvedere, Vila Fonseca I e II, Fluviópolis;
- UBS Dr. Hélio Araújo de Masi (Centro) — Centro, Nossa Senhora de Fátima, Cohapar, Vila Frizzanco;
- UBS Dr. Domingos Cunha (Jardim São Braz) — Santa Cecília, Portal do Sertão, Vila Kennedy I e II, Primavera I, II e III.
Na zona rural, oito unidades atendem aos sábados em sistema de rodízio — Gentio, Jangai, Morro Azul, Lanças, Espigão Alto, Cachoeira, Cerrado da Roseira e Cadeado —, com equipe completa de médico, dentista, enfermeiro e técnicos. Três delas (Lanças, Morro Azul e Cachoeira) também recebem atendimento odontológico fixo, uma vez por semana.
A cobertura de agentes de saúde chega a 100% dos domicílios cadastrados na área urbana, segundo o plano.
O que mais mata em Jaguariaíva
O levantamento de mortalidade, com base em dados de 2015 a 2024, aponta que as doenças do aparelho circulatório — hipertensão, infarto, AVC — são a principal causa de morte no município, com 716 óbitos no período. Em segundo lugar aparecem as neoplasias (câncer), com 348 óbitos e aumento recente em tumores de pulmão, próstata e mama. Doenças respiratórias (223 óbitos, com picos durante a pandemia) e causas externas — acidentes e violência — (217 óbitos) completam o quadro.
A maior concentração de mortes está na faixa de 70 a 79 anos, refletindo o envelhecimento da população — um padrão que, segundo o próprio plano, exige reforço nas ações de prevenção contra hipertensão, diabetes, tabagismo e obesidade.
O dado que chama atenção: partos fora do município
Entre 2014 e 2024, Jaguariaíva registrou 5.864 nascidos vivos — mas quase 40% desses partos (2.328 casos) aconteceram fora do município. Só 60,3% das crianças nasceram em Jaguariaíva. O número de nascimentos também vem caindo de forma constante: de 620 em 2014 para 453 em 2024, o menor patamar da série histórica.
O próprio plano reconhece que esse é um ponto que merece atenção, sugerindo a necessidade de avaliar a estrutura hospitalar local voltada ao parto. É um tema que caberia bem numa pergunta direta à Secretaria de Saúde: por que tantas famílias precisam buscar outras cidades para ter seus filhos?
Vacinação: altos e baixos
A cobertura vacinal infantil (crianças até 12 meses) oscilou nos últimos cinco anos. Em 2022, vacinas como Penta (86,6%) e VIP (85,85%) ficaram abaixo do ideal — um reflexo, segundo o plano, de um cenário nacional de queda na adesão à vacinação infantil. A partir de 2023, os números voltaram a subir, com a maioria das vacinas superando 100% da meta em 2024.
Quem fiscaliza
O Conselho Municipal de Saúde (COMSAÚDE), criado em 1991, é o órgão responsável por fiscalizar e propor diretrizes para a política de saúde municipal. É composto por 12 conselheiros titulares e 12 suplentes — metade representando usuários, um quarto trabalhadores da saúde e um quarto a administração e prestadores de serviço. A Conferência Municipal de Saúde, que reúne a população para discutir prioridades, acontece a cada quatro anos — a próxima só está prevista para o início do mandato seguinte, em 2029.