Carne cultivada em laboratório: entenda a tecnologia da Embrapa que promete transformar o mercado de alimentos

Iniciativa cria opções de frango, peixe e até embutidos a partir da multiplicação de células. Uma novidade que não exige o abate de animais e traz reflexões para o futuro do agronegócio.

A ideia de comer um filé ou um hambúrguer que nunca fez parte de um animal inteiro pode soar como ficção científica à primeira vista. Aqui na região de Jaguariaíva e em todos os Campos Gerais, nossa cultura e economia são profundamente ligadas à pecuária tradicional e ao agronegócio. No entanto, os laboratórios de pesquisa brasileiros estão desenhando de forma acelerada um cenário diferente para o nosso prato de amanhã.

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) está na vanguarda dessa transformação. Com equipes trabalhando em Santa Catarina e no Distrito Federal, os cientistas já desenvolveram protótipos de peito de frango e até alternativas de salmão, anéis de lula e caviar criadas em impressoras especiais. O grande atrativo da iniciativa é produzir proteína de qualidade sem a necessidade de sacrifício animal, cortando também o peso ambiental das emissões de gases e do uso intensivo de terras.

O método utilizado pelos pesquisadores é curioso e compartilha técnicas com a medicina regenerativa. Tudo começa com um procedimento simples, semelhante a uma biópsia rápida, que retira uma pequena amostra de células de um boi ou frango vivo, sem causar dor ao bicho. Esse material microscópico é então levado para estufas e mergulhado em uma espécie de caldo nutritivo. Rico em oxigênio, glicose, vitaminas e sais minerais, esse ambiente faz com que as células se multipliquem em um ritmo acelerado.

Fazer a carne crescer é apenas o primeiro passo. O verdadeiro desafio para a ciência é garantir que o resultado final tenha textura, firmeza e aquele aspecto fibroso que conhecemos. Afinal, a mastigação faz parte da experiência de comer. Para resolver a questão, a Embrapa criou um suporte estrutural microscópico utilizando proteínas vegetais. As células animais grudam nessas finas malhas naturais e começam a formar um tecido tridimensional consistente, muito parecido com o músculo verdadeiro.

A criatividade das equipes foi além dos cortes tradicionais e já mira o mercado das carnes processadas. Os laboratórios estão finalizando uma película comestível feita sob medida para substituir a tripa usada na fabricação de linguiças e outros embutidos. A expectativa dos desenvolvedores é que todo esse pacote tecnológico esteja maduro e pronto para parcerias com a indústria privada até meados de 2027.

Película comestível serve como a tripa para o invólucro de embutidos 
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

O Brasil não está dormindo no ponto em relação à burocracia comercial. O país já conta com um marco regulatório da Anvisa para organizar a produção de carnes de laboratório, caminhando ao lado de nações como Estados Unidos, Singapura e Israel, que já debatem abertamente esse comércio. Os resultados da Embrapa foram inclusive validados pela comunidade científica internacional recentemente. Agora, resta acompanhar de perto como e quando essa inovação fará sua estreia oficial nas prateleiras dos nossos supermercados.

Com informações da Agência Brasil.