Jaguariaíva vai ganhar 3,6 quilômetros de ruas novas no Distrito Industrial Ary Fanchin. O Governo do Paraná autorizou, nesta quinta-feira (2), o início das obras de pavimentação poliédrica no local, com investimento de R$ 10.487.417,71 em recursos estaduais. A escolha reacende uma discussão antiga na cidade: por que Jaguariaíva ainda prioriza a pedra irregular em vez do asfalto, mais comum no restante do país, e o que cada uma dessas técnicas realmente entrega em custo, durabilidade e conforto para quem usa a via todos os dias.

O que o Estado autorizou
A obra no distrito industrial foi conduzida pela Secretaria de Infraestrutura e Logística (SEIL) e pelo DER-PR. O contrato não cobre só o assentamento das pedras: inclui terraplenagem, regularização de subleito, sub-base, base, galerias de água, meio-fio de concreto e sinalização viária completa em toda a extensão da obra. Segundo a superintendência regional do DER-PR, a técnica poliédrica foi escolhida por suportar bem o tráfego pesado de caminhões e por oferecer boa drenagem de água de chuva — dois fatores centrais numa área que hoje sofre com poeira na seca e lama nos períodos chuvosos, prejudicando o escoamento da produção das indústrias madeireira, de papel e celulose, metalmecânica e de logística instaladas no local.
Para o prefeito José Sloboda, a obra representa um ganho direto para quem trabalha e produz na região industrial da cidade. A prefeitura trata o investimento como resultado de parceria com o governo estadual, sem custo direto ao município.
Por que o custo inicial não conta a história toda
Comparar preço por metro quadrado de asfalto e de poliedro isoladamente é enganoso. No mercado nacional, obras asfálticas simples custam entre R$ 45 e R$ 60 o metro quadrado, podendo ultrapassar R$ 350 a R$ 500 quando a via exige maior espessura ou suporte de carga pesada. Do valor total de uma obra de asfalto, cerca de 30% é gasto só na preparação do terreno, 50% no revestimento e 20% em drenagem e acabamento.
A pavimentação poliédrica não tem uma tabela de preços tão padronizada. O custo depende da distância até a jazida de pedra — o transporte pesa bastante na conta final — e da disponibilidade de mão de obra especializada, já que o assentamento é manual, pedra por pedra. É justamente esse processo lento que encarece a obra no curto prazo e a torna mais demorada de entregar do que o asfalto, que libera o tráfego em poucas horas após a aplicação.
O que muda a equação é o longo prazo. Levantamentos do setor de pavimentação apontam que o asfalto convencional exige recapeamento a cada 8 a 12 anos em vias de tráfego médio, com o asfalto quente (CBUQ), o mais resistente, durando entre 10 e 15 anos até precisar de intervenção. Pavimentos rígidos e semirrígidos, categoria próxima à lógica do poliedro, chegam a durar mais de 20 anos com manutenção mínima, segundo dados do setor de infraestrutura viária. Na prática, isso significa menos obras de recapeamento ao longo das décadas — e menos ruas fechadas para reparo.
O que a pedra ganha e o que ela perde
A pavimentação poliédrica leva vantagem em um ponto pouco discutido nos debates sobre obras públicas: a drenagem. Por ser um revestimento permeável, permite que parte da água da chuva infiltre no solo, reduzindo o risco de alagamento — diferença relevante numa cidade sujeita a chuvas fortes de verão, como Jaguariaíva. O asfalto, por ser praticamente impermeável, direciona toda a água para o sistema de drenagem da via, que precisa estar bem dimensionado para dar conta do volume.
Do outro lado, a pedra perde em conforto e acessibilidade. A superfície irregular gera mais ruído do atrito entre pneu e pedra e provoca trepidação em veículos, ônibus e pedestres — um incômodo maior em ruas residenciais do que em vias industriais. Para pessoas com deficiência, idosos e usuários de cadeira de rodas, a irregularidade da pedra também representa uma barreira real de mobilidade urbana, algo que o asfalto, com sua superfície contínua, praticamente elimina.
A manutenção segue lógica inversa nos dois casos. O asfalto precisa de reparo mais frequente, mas o tapa-buraco é um serviço simples e rápido, disponível em praticamente qualquer cidade. Já a pedra exige manutenção rara, mas depende de mão de obra qualificada para repor peças soltas ou recompor trechos danificados — profissional que nem sempre está disponível com facilidade em municípios de porte médio.
O que fica para o morador
Nenhuma das duas técnicas resolve todos os problemas de uma vez. Para uma via de tráfego pesado como a do Distrito Industrial, com pouco fluxo de pedestres e necessidade de drenagem eficiente, o poliedro tem respaldo técnico. Para ruas residenciais, com circulação constante de pessoas, ciclistas e veículos de passeio, o asfalto tende a oferecer mais conforto e segurança de mobilidade.
O que falta no debate público em Jaguariaíva é transparência sobre o custo total de cada escolha ao longo do tempo — não apenas o valor da obra no dia da inauguração, mas o que a cidade vai gastar em manutenção nos próximos 20 anos. Esse número, hoje, não é divulgado junto com o anúncio das obras.